Uma pesquisa desenvolvida pelo Programa de Pós-Graduação em Economia da UNILA revela que o fenômeno dos jovens que não estudam e não trabalham (os chamados “nem-nem”) tem um recorte de gênero profundo. Segundo o estudo, as mulheres representam quase 70% dos jovens brasileiros nessa condição de inatividade.
A dissertação, de autoria da mestra Karina Costa, aponta que o principal motivo para essa realidade não é a falta de interesse, mas sim a sobrecarga de trabalho doméstico e de cuidado não remunerado. O estudo utilizou microdados da PNAD Contínua (IBGE) entre 2017 e 2024.
O trabalho invisível das jovens brasileiras
A pesquisa identifica que o cuidado com crianças, idosos e pessoas doentes é o fator determinante para a inatividade feminina entre jovens de 15 a 29 anos. Diferente dos homens, cuja principal barreira é a falta de oportunidades locais, as mulheres estão fora do mercado porque precisam realizar tarefas que a sociedade frequentemente não enxerga como trabalho.
De acordo com Karina Costa, essas mulheres não estão procurando emprego porque já estão ocupadas demais trabalhando dentro de casa, sem remuneração ou reconhecimento. A análise mostrou que realizar tarefas domésticas aumenta em até 19,5 pontos percentuais a probabilidade de uma jovem entrar para o grupo das inativas.
Desigualdades estruturais e perfil social
O estudo ressalta que a condição de “nem-nem” não deve ser vista como uma escolha individual, mas como um reflexo de desigualdades estruturais. Entre os jovens inativos, há um perfil predominante:
- Mulheres pretas e pardas.
- Famílias de baixa renda.
- Residentes em áreas rurais.
- Moradoras das regiões Norte e Nordeste.
A orientadora do estudo, professora Marcela Nogueira Ferrario, enfatiza que a ausência de políticas públicas, como a falta de vagas em creches e serviços de apoio social, obriga essas jovens a assumir responsabilidades familiares que interrompem sua trajetória educacional e profissional.
O papel da ciência na economia do cuidado
O estudo utiliza a lente da economia do cuidado para interpretar os dados e questionar a “culpabilização” das jovens. Ao analisar o cenário de 2017 a 2024, as pesquisadoras perceberam que o quadro é persistente, mantendo-se estável mesmo diante de oscilações econômicas no país.
Para as autoras, a produção deste conhecimento é essencial para subsidiar políticas públicas que combatam a desigualdade de gênero. Ao tirar o foco da escolha pessoal e colocá-lo na infraestrutura social, a pesquisa busca qualificar o debate sobre como reintegrar essas mulheres ao sistema de ensino e ao mercado de trabalho formal.




