A violência contra a mulher na região das Três Fronteiras vai muito além das agressões físicas e psicológicas. Ela se manifesta no subemprego, na sobrecarga de cuidados e na ausência de redes de proteção efetivas.
Essa foi a principal conclusão da audiência pública realizada no último dia 31, na Câmara Municipal de Foz do Iguaçu. O encontro reuniu cerca de 120 participantes para debater as falhas nas políticas públicas e exigir ações conjuntas entre Brasil, Paraguai e Argentina.
O avanço alarmante dos casos em Foz do Iguaçu
Os dados apresentados durante a plenária revelam um cenário de extrema gravidade. Segundo a Secretaria de Segurança Pública do Paraná, Foz do Iguaçu registrou um aumento de 200% nos casos de estupro e atentado violento ao pudor entre 2024 e 2025.
Além disso, o descumprimento de medidas protetivas de urgência cresceu 43,49% no último ano. A pesquisadora Rosane Amadori, da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila), alertou que essas falhas no sistema legal colocam em risco direto as vítimas que decidem romper o silêncio.
A especialista também destacou a alta vulnerabilidade da região fronteiriça para crimes complexos, como o tráfico de pessoas e a exploração sexual de meninas.
Desafios políticos e a falta de integração
A audiência pública foi marcada por fortes críticas à ausência de compromisso governamental em diferentes esferas. No âmbito estadual, o governador do Paraná, Ratinho Junior, foi questionado por não assinar o Pacto Nacional Brasil Contra o Feminicídio, lançado em fevereiro, o que fragiliza a rede de proteção local.
O cenário internacional também agrava a situação. Participantes denunciaram a postura do presidente da Argentina, Javier Milei, que nega a existência da violência de gênero. No Paraguai, a gestão de Santiago Peña foi criticada pela falta de políticas de defesa da mulher em sua agenda oficial.
A brutalidade que atravessa fronteiras
Para a professora Madalena Ames, que presidiu os trabalhos na Câmara, a violência é um problema que exige atenção global e doméstica. Ela ressaltou a necessidade de denunciar agressores que utilizam os próprios filhos como instrumentos de tortura psicológica contra as mães, cometendo o crime de destruir essas mulheres em vida.
Outro ponto de grande preocupação é a atuação do sistema de justiça. Relatos indicam que muitos agressores são liberados logo após o crime, gerando medo e revitimizando as mulheres que buscam ajuda.
A coordenadora das Promotoras Legais Populares da Fronteira, Danielle Araújo, reforçou que a rede de proteção não pode parar na aduana. Segundo ela, a violência na fronteira é fluida, mas o acolhimento ainda é estático. Sem integração bilíngue e cooperação entre os três países, a impunidade continuará livre.
Documento oficial e próximos passos
Como resultado do encontro, as entidades elaboraram um documento oficial com cobranças que será protocolado na Câmara de Vereadores e na Prefeitura de Foz do Iguaçu.
O texto exige dotação orçamentária específica e a aplicação de políticas de gênero transparentes e eficazes. A meta das organizadoras é estabelecer um ciclo permanente de audiências na região para monitorar os avanços e manter o diálogo com a comunidade.
Sugestões de Legendas para Imagens:
- A audiência pública na Câmara Municipal foi presidida pela professora Madalena Ames (Foto: Assessoria/Divulgação).
- Encontro marcou a primeira etapa de um ciclo permanente de debates sobre políticas de gênero (Foto: Assessoria/Divulgação).
(Com informações de APP-Sindicato/Foz e Grampo Comunicação)



